sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Toda aquela coisa de garfos tilintando. E risadas. E goles enormes. E pratos. E facas roçando no fundo do prato. Bocas mastigando. Estavam na verdade deixando-a enjoada. Estômago queima. Olhos lacrimejam. O banheiro mais próximo ficava perto da escada, mas teria que atravessar toda a sala. Isso seria tão...deselegante. Quando ela saiu correndo ninguém entendeu nada. Mas, talvez o vinho lhes tivesse ajudado a achar coisas mais interessantes a fazer. Só o namorado foi correndo atrás ver o que tinha acontecido. Bem é verdade que esse correndo estava já debilitado. Quando conseguiu chegar já a encontrou lavando o rosto. Vermelha.
- Eu acho que o vinho italiano não te fez bem.
- É pode ser.
- Acostumada com aqueles vinhos de garrafa plástica...
Rápido acesso ao vaso sanitário. O cheiro dele estava tão forte. Não tinha bebido. Não queria correr o risco de dar vexame em seu primeiro jantar com a família Seixas. Sempre foi tão fraca. Novamente na pia. O barulho da água correndo dava uma espécie estranha de alívio. Lá fora todos tão alegres. Nem notaram que ainda estava ali. O namorado desistiu de conversar. Estava mais interessado em voltar pra mesa e terminar de comer. E beber.
Passou o resto da noite na companhia do cachorro, na varanda. Só a intenção de se levantar e voltar à sala lhe causava náuseas. Preferiu ficar. A noite não era bonita. Sem lua e chuvosa. O cachorro não era seu amigo, cada vez que notava que ela estava olhando-o, tinha um leve sobressalto e rosnava como quem tem preguiça.
-Deve ter sido o camarão.
E continuava com o mesmo olhar parado.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Asas Brancas

Eu sinto que ela está voltando.
Eu sei, eu creio.
Não sei bem se o vento
ou o sol
mas é ela, eu sinto.
Sim, a poesia voltou ao meu sertão.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Indiferente é uma palavra muito forte. Talvez seja até mais forte que o próprio nome "indiferença", que é algo vago e, de tão vago, longe. Indiferente não. Indiferente é algo externo que antes foi interno (e ainda o é) - o interno externalizado - portanto, próximo. O típico sentimento que se transfigura em atitude, algo que atinge tudo o que é outro.
O indiferente atingiu em cheio Lilian aquele dia. Não porque ela não tivesse conhecimento da existência dessa força, mas porque ela não se conhecia outro. Toda essa história de pertencimento era o que valia. Sempre. Não acreditava em espaço, ou qualquer coisa que envolvesse afastamento.
Eram na verdade aquele tipo de casal que desperta o asco nos demais casais (mas no fundo isso é sempre um mascaramento da inveja que sentem). Tinham uma tal maneira de caminharem que lhes conferiam a tal unidade. Se olhavam. Como se olhavam! Às vezes não ousavam palavra. Poderia desviar os olhos um do outro. Ele sempre fez tudo por Lilian, e depois de um melódico 'obrigada' repetia, assiduamente: Você é parte de mim!
Como esperar que a coitada entendesse diferente?
Mas o acontecido não tem volta. Fato esse que causou estranhamento até mesmo nos familiares, que nada tinham a ver com isso. A verdade é que Casemiro havia se cansado. O cansaço é lá uma coisa bastante perigosa. Proporciona o desligamento de qualquer ímpeto racional. Alegações dele. Mas o acontecido não tem volta. Romperam. E ela pra um canto, ele para o outro. E assim ficaram por três meses.
Chovia aquela tarde em que se reencontraram. Faz tanto tempo... Lilian ainda com aquele mesmo olhar ameaçador, não porque ela oferecesse qualquer ameaça física, mas é o perigo que toda mulher tem no olhar (poucas tem conhecimento disso). Casemiro ainda com aquele ar de que o mundo é tão pequeno, isso o fazia tão forte, invencível. Mas a verdade era que ele tinha perdido o emprego, e estava pra ser despejado da pensão. O pai não queria o ver em casa. Assunto pra outra hora. E ninguém por ali estava disposto a lhe arranjar qualquer serviço. Estava indo para o centro. Quem sabe tivesse mais sorte. Não, ainda não havia aprendido a ser indiferente. Tinha aprendido as consequências - uma cicatriz das bem grandes alojada bem no meio do peito, ainda doía cada mudança de estação.
Segurou a mão dele. Sorriu. Sentiu outra vez aquilo por ela, aquilo que nunca soube explicar. Ela não. Sentiu algo diferente. Mágoa é uma coisa que não tem volta...
Estava a caminho da sua padaria. Infelizmente não havia vaga. Beijou seu rosto e saiu.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Desatina

Menino bonito
ergueu as mãos
tentou pegar nuvem
fazer algodão doce pra me dar

Não pôde.
Céu tava azul
Aberto que nem margarida
limpinho aqui dentro.

Procurou então um pássaro
dos mais coloridos
queria as penas
me dar um colar

Cadê o bicho?
que só se escuta o canto,
hora aqui,
hora lá...
ou se pensa escutar?

Disse então buscar um pouco d'água
sol quente
calor forte
árvores rarefeitas

Desistiu.
rio tinha piranha,
teve medo.

Menino bonito se aborreceu
tentou alcançar uma pedra
para chutar.
não achou.
Sentou emburrado
debaixo do sol.

Menino bonito é engraçado.
Sempre tentando
pegar as coisas externas
como se fossem palpáveis
internalizar o que já mora
ali dentro da gente.

domingo, 29 de novembro de 2009

Travessia

Borboleta, no mais antes, é lagarta
Soubesse ela, um dia, borboleta.
A vontade de encontrar algo novo
necessita encasulamento.
É o voltar-se para si.
fechar os olhos para ver melhor
O silêncio guarda sempre histórias
extraordinárias.
Um belo dia, a necessidade de romper-se
(explosão!)
Descobrir-se novo
é epifânico
Acostumar-se novo
leva tempo.
É que nem aqueles instantes parados
debaixo de árvore:
é tudo tão certo
que é certo de dúvida.
Ou quando alguém acende rápido a luz
que a gente tem que fechar os olhos primeiro
pis...car...
Mas logo acostuma.
Daí vem o alumbramento...
Breve movimento da alma
arrebata pro mais alto

... e poder voar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Consciência

Talvez seja mesmo melhor assim
Não olhe.
Nem fale nada, por favor.
melhor que não haja justificativas
melhor que me pareça injusto
melhor que eu chore
me indigne
esbravege
sozinha.
Não se arrependa.
Senão haverá culpados
e o retorno ao erro é sempre mais sofrido
que a surpresa.
Só vá.
e me deixe a resmungar com meus botões

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Seção amigos

Poemas antigos, sentimentos eternos. No coração sempre.

Tange!
(Para Raoni Moura)

No horizonte um fio desponta
desalinha
recriando a visão do entardecer...
Um cheiro de quente invade os que tentam ouvir com os olhos.
Desajustado, imprevisível,
menino brinca, no meio da estrada, de caminhar

"Ciranda cirandinha, vamos todos namorar..."
Ops!!

Menino que brinca nos olhos da gente,
mergulha no mais íntimo
sempre encontrando um espacinho
para iniciar a sua grande missão
de fazer todo mundo sorrir...

***

(Para Fernando M. Lara)

Das linhas desta partitura
notas de alumbramento
dançam desconfiadas
O saber ver as coisas
perpassa
O querer ver
permanece
E do querer sentir
nasce a melodia indizível do não-tempo
Neste concerto as notas contam
o que o sentido transcendeu nas palavras.

***

Menina Mulher
(Para Nathália Fernandes)

Sorrateira
ela tira o salto alto
turbilhão de vontades
e deveres
melhor escolher
o que me fará viver
conseqüência só existe
pra quem pára
pra pensar
melhor transcender
que implodir
toda essa vida
que traz nos olhos.

***

Epifanias
(Para Marina Apocalypse)

Aula chata!
Ramones
All-star
Risadas
Ray-ban
Espan
hol
Beatles
Cerveja
Risadas
García Marquéz
Filmes
Filmes
Filmes
Risadas
Aulas de inglês
Ironias
Risadas
Español
Bar
Literatura
Cachinhos
Gramática do cursinho
Praia
(Explosão!)

De repente o céu fia essa harmonia
de coisas dispersas
sepafusas
E ela caminha
mochila nas costas
Cachinhos e all starts.

***

Saltada de Uma Partitura
(Para Camila Geroto)

Violino
primeira nota
ensaia pirueta
ponta ponta

segunda nota
vento leva
vento traz
coreografia nova
arabesque

terceira nota
quarta nota
quinta nota

atravessa a vida
como os palcos
saltos, fouettés, giros
nas mãos, as asas de uma borboleta
nos olhos, as cores do arcoíris
e no coração,
todas as notas deste violino.

***

É obvio que faltam muitos a serem contemplados, mas isso não diminui o que eu sinto também por eles.
Sempre que for surgindo poema desses novo, eu postarei aqui.

Nathacia M. Lucena