quarta-feira, 13 de agosto de 2014

No metrô

A menina olha para o chão
como quem olha para nada
como quem não tem nada a ganhar
nada a perder.

O menino olha para o nada
como quem olha para tudo
como quem tem tudo a fazer
tudo a sonhar.

Tudo e nada se encontram
amor

domingo, 1 de julho de 2012

Um dia a gente cresce e descobre que não pode mais correr para o colo da mãe sempre que se sentir com medo ou assustado. A gente passa a ter que enfrentar todos os desafios de frente, sem balançar, e isso tem que ser firme, porque pra nós, de certa forma, demonstra quão bom foi o trabalho que a pessoa que mais amamos fez, quão bons alunos fomos. É como se disséssemos: "olha, mãe, olha como eu aprendi bem!" Mas é tão ruim quando a gente num consegue dar três passos sem cair. Parece tão difícil esse negócio de voar e o pânico da altura, do ter-que-bater-asas nos faz esquecer muito do que aprendemos. Odeio me fragilizar. E tenho me fragilizado com frequência. Tanta frequência que já mal me lembro dos meus momentos de força. A imagem que tenho e guardo, são as sucessivas quedas após tentar inutilmente me lançar e bater as asas. Não tenho voado por mais de 3 metros. E a simples consciência disso me faz agir como criança. Não quero ser criança. E eu já cansei de dizer que eu não vou mais chorar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-yyy...

Esfregue os olhos
Espreguiçe devagar
Encha os pulmões
Estique braços e pernas:
Eu voltei!

Os dois pés no chão
Avançe o corredor
Escove os dentes
Jogue uma água no rosto:
Eu voltei!

Chame as crianças
Passe um café
Coma alguma coisa
Ponha sua melhor roupa:
Eu voltei!

Saia de casa
Saia às ruas
Às avenidas
Saia! Saia!
Eu voltei!

Anuncie nos bares!
Grite nas praças!
Nos terminais de ônibus!
Dentro dos trens!
EU VOLTEI!

Chame os negros e as prostitutas
Chame os emos e os funkeiros
Chame os nerds, os gordos
Os velinhos do rotary club:
EU VOLTEI!

Convoque os comunistas!
Convoque os socialistas!
Os anarquistas e paganistas!
Direita! Esquerda! Centro-avante!!
EU VOLTEEEII!

O navio encosta no cais.
A brisa marítima já não é a mesma de outrora
nem o seu jeito de bagunçar meu cabelo
e a minha alma
Mas ela tem um não sei quê de novo e velho
Meus pés já em terra firme se libertam.
... eu voltei.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Inteligência Infantil

- Por que se chama venezuela?
- Num sei, Lu. Eu sei porque a Bolívia se chama Bolívia.
- Por quê?
- Por causa do Simão Bolivar, o carinha que fez a independência do país.
- O que é independência?
- É quando um país fica livre. Que nem a gente, no Brasil, num tem ninguém que manda na gente.
Segundos de silêncio.
- Mas e a Dilma? Ela num manda na gente?


*****

Esse diálogo realmente ocorreu, entre meu irmãozinho, de 9 anos, e minha irmã, de 16.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Securidão

Passo os dias na tentativa desse caminho de volta
caminho difícil
complexo
confuso..
Já me parece que ando em círculos a meses.
Anseio sair desse deserto de coisas inertes e inatingíveis.
Cansei de me iludir com oásis.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Complexidade

Pior do que não saber por onde começar
é não começar.
Pior é quando o começo se trata de um retorno
e o retorno fica entre a retomada e o recomeço.
Pior é não ter nada melhor pra escrever
do que essas pesadas palavras pesarosas
como tentativa de retomada
do retorno ao recomeço.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A rosa

Essa noite sonhei com pétalas
delicadas pétalas vermelhas
que se estendiam como cortina
à minha frente.
Mas não eram pétalas comuns
tão pouco pétala que viessem
de quaisquer rosas vulgares.
Brilhavam
um brilho dourado inexplicável
inexplicavelmente belo
tão intenso
que sentia minha própria face
irradiar o mesmo brilho.
Quando
por impulsão da vontade
de tornar as coisas reais pelo tato
tentei tocá-las,
fugiam,
como repelidas por um imã de mesmo pólo.
E algo lá no fundo me dizia
ainda não é tempo;
em breve,
muito breve,
será.
Acordei com essa pétala
sobre o meu travesseiro
como que pra recordar a promessa
dessa esperança que move
meu peito.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Denúncia

A janela do meu quarto aberta
denuncia o que eu
a muito
negava.

Chamem a polícia,
por favor.
Me levaram
e eu não sei quem
nem o quê
mas algo me falta.
Há um espaço vazio.

Chamem a polícia,
por favor.
Me levaram
algo precioso
que eu não dava valor
até dar por falta.

Chamem a polícia,
pelo amor de Deus.
que o que me levaram
foi o verbo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Encontro

Permitiu que seus olhos repousassem sobre o prato remexido por alguns instantes. Uma fração incerta de toda a eternidade. A boca entreaberta cerrava todas as palavras que queria dizer. No meio de todo o burburinho do restaurante, olhou de novo pra ela que aguardava aflita qualquer reação. Sorriu entre os lábios enquanto dava uma última garfada na comida. Última porque seu estômago não aguentava mais aquele odor de pessoas alegres e despreocupadas. Olhou outra vez no relógio enquanto ela lhe falava de coisas supérfulas e dislexas. Interessante seria se ao se despedir ela lhe tivesse convidado pra um café, ou ainda se tivesse tropeçado nos degraus da porta, de maneira que lhe causasse algum prazer. Nenhum. A cidade jazia numa calma morna de luzes acesas por pura conveniência. Mais um sinal fechado. Um cachorro que fuçava o lixo lhe fez pensar que talvez sejamos todos cachorros buscando arduamente algo de produtivo ou aproveitável no outro. Talvez seja um pensamento vítima de toda cultura burguesa que lhe fora imposta por séculos. Mas não por isso menos verdadeiro. Evidente é o fato de que uma pessoa se torna interessante a partir do momento que descobrimos nela algo que nos seja produtivo, um assunto, uma posição, um conflito, ou aproveitável, uma diferença, algo criticável, ou rizível. Caso contrário, a pessoa jaz na completa inexistência. E a indiferença é a pior das mortes.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

momento

O caminho me questiona
a expressão vazia
os olhos perdidos
na lembrança do que
tem que ficar.
Sentimento de ausência
invade tudo o que é vivo
em mim
Só o que me move
é a esperança de te ter
junto de mim
de novo
em breve.