terça-feira, 20 de outubro de 2009

Da entrega

Sei que serás
só não sei o quê.
Olho apenas, com meu olhar de mãe
torcendo para que tudo saia bem
É muito tênue o limite
entre o meu e o seu sonho
mas prefiro sonhar os seus
como que por medo de sonhar errado
É errado sonhar sonhos alheios?
os farei meus então
Tenho medo,
tenho dúvidas,
esse negócio de ser mãe
é muito novo pra mim
Então, por favor,
seja paciente comigo
porque de uma coisa estou certa:
o amo mais que a mim.

Vontades

Vontade de apedrejar meu ventre
Vontade de nascer de mim
Vontade de saber quem sou
Vontade, vontade de me ver assim

Vontade de te arrancar de dentro
Vontade de negar, mudar
Vontade de fechar os olhos
Vontade, vontade de em mim matar

Vontade de ousar começo
Vontade de impor um fim
Vontade de afastar, morrer
Vontade, vontade de saber de mim.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Reivindicação

O papel em branco me desafia.
Quanto tempo ausente
da música que corre
que canta
que me vive...
É como se ela se colocasse
numa posição de objeto observável...
...apenas.
Sim,
ainda me corre
me canta
me vive...
eu é que me abstive de cantar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Expiração

Esse eu sem fim me cansa. Queria que não fosse assim tão infindável, tão enfadante. O infinito pesa mais que ser simplesmente. Às vezes machuca. O conhecimento, o mesmo que clareia as ideias, clareia também as feridas... às expõe como em uma mesa cirúrgica... só se esquece a anestesia. Não entendo o porquê dessa necessidade insaciável de autoconhecimento e de evolução... mentira. Entendo sim, mas se você não entende não sou eu que vou lhe explicar. Melhor assim. Melhor não saber. Todo o processo de desconhecimento e de desconscientização dá muito trabalho. Dói e há sempre perdas, sim, físicas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

E então ela chorou.
Lágrimas assim caladas, mas que carregavam no seu âmago a semente do grito, do desespero, que por algum motivo permaneceram apenas lágrimas.
Queria parar mas aprendera a duras penas que o mundo não é feito de vontades realizadas. Procurou disfarçar, como se tentasse ser alheia a si mesma, como se tornasse só exterior e então seria enfim o que ele tanto quisera, uma casca, uma boneca. Todas as suas tentativas frustadas de não ligar, não sentir ciúme, não esperar retorno agora estavam mais presentes em sua face do que nunca. Não, não era por causa dele que estava chorando, aliás, não tem ninguém chorando... Dor. Será que nem a manifestação silenciosa desse segredo ela não se permitia? Quem a poderia ver ali, naquele banheiro com a porta fechada? Não, ele não merece isso que ele fez nela. Mas já fez. O que lhe resta fazer?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Canção de Ninar

Senta, criança, senta
tenho histórias pra contar
sobre terras bem distantes
cavalos que voam,
gente pequenininha
do tamanho de um polegar.

Senta, criança, aquieta-te
tudo na vida há de passar
Vento corre
carregando o tempo
mais rápido do que podes imaginar.

Senta, criança, senta
Pára um pouco pra pensar
Por que temes se Sou contigo?
Descansa
que de ti eu vou cuidar.

Criança senta
criança deita
criança dorme devagar
criança sonha com terras distantes
com flores que dançam e árvores a falar

Seu Pai a leva pra cama
estende a mão pra abençoar
Beija sua testa, sorri
Criança dorme, criança sonha
com castelos brilhantes
e uma viagem lunar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama."

Foi assim. De repente. Num instante todos os pedaços de mim estavam espalhados pelo chão de minha sala. Fiquei ali, parada, vendo pouco a pouco o esvaziar-me de mim mesma. Reflexos. Pedaços de algo que não está mais em mim, mas que ainda sou eu.
Ele? Fechou a porta atrás de si, sem nem olhar pra trás. Menor interesse nesse espetáculo de desconstrução não tinha. Ar sai das entranhas num lufo, carregando tudo para fora. Ponteiro pára: e a sensação de esvair-se.
Riacho nasceu do mais profundo das minhas terras. Vontade de desfazer-me para criar-me de novo, de outra forma, qualquer forma que me fizesse não ligar. É tão difícil o conviver-me. É pior do que ficar frente ao espelho buscando quem é aquela. Talvez só alguém que precisa ir pro deserto.
E a sensação de suspensão causada pela imagem, que toda a vida que se construiu sonhada, implodindo. Malditos camicases!
De nada adianta ficar observando o fogo se espalhar por toda a mata. As cinzas. O escuro. A fumaça. É preciso limpar a área para reflorestar.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Madrugada

Senta do meu lado outra vez.
Foram tantas idas e vindas
Não sei nem por onde começar o que já acabou
Só pra te doar mais um pedaço da minha vida
Você já tem tantos, não é?!
Sabe que te carrego no meu bolso, não sabe?
E sempre que te quero por perto
É só apertar a mão no peito - o do bolso-
Que eu sinto seu abraço outra vez
É estranho te ver partir
assim
tão descasadamente
alheio ao que meus olhos ainda tem a lhe dizer
É verdade,
as lembranças serão para sempre
nosso segredo.
Promete não as enterrar em algum lugar escuro e afastado?
Preciso deixá-lo que vá
por mais dolorido que isso seja no meu peito
No bolso que te guardava
silenciosamente te deixo partir
Só lhe peço um último favor:
não atenda a meu próximo telefonema.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Mudança de estação

Quem já havia acessado o meu blog notará uma "pequena" diferença na sua aparência. Andava muito insatisfeita como o meu layout, pois não tinha nada a ver com o tema que havia escolhido para o blog, muito menos com o título que dei a ele. Então minha super prestativa amiga, Carolina Zuppo Abed, ajudou-me a concretizar as mudanças que se forjaram na minha cabeça. Eu, completamente iniciante e sem a menor noção de html e essas coisas, não teria conseguido sair do lugar... mas agora ela me ensinou^^ Obrigada, Cá!
Vale uma merchan, num vale? Acessem: http://rosapapel.blogspot.com

Um beijo,
Nathacia.
Sozinha o frio vem desnudar-me
Por que tem que ser assim?
Essa entrega crua
Cruel, criada
Antes queria poder guardar-me
Me abster
Mas não há como esconder
A necessidade do deixar-se morrer
Punge, impele, implora
Negar-se
Negar-me
Que seja em fim.