quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Consciência

Talvez seja mesmo melhor assim
Não olhe.
Nem fale nada, por favor.
melhor que não haja justificativas
melhor que me pareça injusto
melhor que eu chore
me indigne
esbravege
sozinha.
Não se arrependa.
Senão haverá culpados
e o retorno ao erro é sempre mais sofrido
que a surpresa.
Só vá.
e me deixe a resmungar com meus botões

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Seção amigos

Poemas antigos, sentimentos eternos. No coração sempre.

Tange!
(Para Raoni Moura)

No horizonte um fio desponta
desalinha
recriando a visão do entardecer...
Um cheiro de quente invade os que tentam ouvir com os olhos.
Desajustado, imprevisível,
menino brinca, no meio da estrada, de caminhar

"Ciranda cirandinha, vamos todos namorar..."
Ops!!

Menino que brinca nos olhos da gente,
mergulha no mais íntimo
sempre encontrando um espacinho
para iniciar a sua grande missão
de fazer todo mundo sorrir...

***

(Para Fernando M. Lara)

Das linhas desta partitura
notas de alumbramento
dançam desconfiadas
O saber ver as coisas
perpassa
O querer ver
permanece
E do querer sentir
nasce a melodia indizível do não-tempo
Neste concerto as notas contam
o que o sentido transcendeu nas palavras.

***

Menina Mulher
(Para Nathália Fernandes)

Sorrateira
ela tira o salto alto
turbilhão de vontades
e deveres
melhor escolher
o que me fará viver
conseqüência só existe
pra quem pára
pra pensar
melhor transcender
que implodir
toda essa vida
que traz nos olhos.

***

Epifanias
(Para Marina Apocalypse)

Aula chata!
Ramones
All-star
Risadas
Ray-ban
Espan
hol
Beatles
Cerveja
Risadas
García Marquéz
Filmes
Filmes
Filmes
Risadas
Aulas de inglês
Ironias
Risadas
Español
Bar
Literatura
Cachinhos
Gramática do cursinho
Praia
(Explosão!)

De repente o céu fia essa harmonia
de coisas dispersas
sepafusas
E ela caminha
mochila nas costas
Cachinhos e all starts.

***

Saltada de Uma Partitura
(Para Camila Geroto)

Violino
primeira nota
ensaia pirueta
ponta ponta

segunda nota
vento leva
vento traz
coreografia nova
arabesque

terceira nota
quarta nota
quinta nota

atravessa a vida
como os palcos
saltos, fouettés, giros
nas mãos, as asas de uma borboleta
nos olhos, as cores do arcoíris
e no coração,
todas as notas deste violino.

***

É obvio que faltam muitos a serem contemplados, mas isso não diminui o que eu sinto também por eles.
Sempre que for surgindo poema desses novo, eu postarei aqui.

Nathacia M. Lucena
Hoje me deu vontade de escrever.
Mas ao mesmo tempo que sinto tudo tão perto, as coisas insistem em se fechar ao mais leve toque. Como aquela plantinha, sabe? Onze horas, o nome dela. Não sei quem tem mais medo: eu ou as coisas. São tão bonitas que tenho medo de as tocar e as descobrir distintas da imagem observável. Mas elas insistem em se fechar, e isso é o que mais regula minha iniciativa, pois, se já me é insuficiente apenas observá-las, que dirá nem isso... Ficar ali, parada, vendo todo esse movimento de oclusão e vácuo inutilmente. Mãos atadas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Da entrega

Sei que serás
só não sei o quê.
Olho apenas, com meu olhar de mãe
torcendo para que tudo saia bem
É muito tênue o limite
entre o meu e o seu sonho
mas prefiro sonhar os seus
como que por medo de sonhar errado
É errado sonhar sonhos alheios?
os farei meus então
Tenho medo,
tenho dúvidas,
esse negócio de ser mãe
é muito novo pra mim
Então, por favor,
seja paciente comigo
porque de uma coisa estou certa:
o amo mais que a mim.

Vontades

Vontade de apedrejar meu ventre
Vontade de nascer de mim
Vontade de saber quem sou
Vontade, vontade de me ver assim

Vontade de te arrancar de dentro
Vontade de negar, mudar
Vontade de fechar os olhos
Vontade, vontade de em mim matar

Vontade de ousar começo
Vontade de impor um fim
Vontade de afastar, morrer
Vontade, vontade de saber de mim.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Reivindicação

O papel em branco me desafia.
Quanto tempo ausente
da música que corre
que canta
que me vive...
É como se ela se colocasse
numa posição de objeto observável...
...apenas.
Sim,
ainda me corre
me canta
me vive...
eu é que me abstive de cantar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Expiração

Esse eu sem fim me cansa. Queria que não fosse assim tão infindável, tão enfadante. O infinito pesa mais que ser simplesmente. Às vezes machuca. O conhecimento, o mesmo que clareia as ideias, clareia também as feridas... às expõe como em uma mesa cirúrgica... só se esquece a anestesia. Não entendo o porquê dessa necessidade insaciável de autoconhecimento e de evolução... mentira. Entendo sim, mas se você não entende não sou eu que vou lhe explicar. Melhor assim. Melhor não saber. Todo o processo de desconhecimento e de desconscientização dá muito trabalho. Dói e há sempre perdas, sim, físicas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

E então ela chorou.
Lágrimas assim caladas, mas que carregavam no seu âmago a semente do grito, do desespero, que por algum motivo permaneceram apenas lágrimas.
Queria parar mas aprendera a duras penas que o mundo não é feito de vontades realizadas. Procurou disfarçar, como se tentasse ser alheia a si mesma, como se tornasse só exterior e então seria enfim o que ele tanto quisera, uma casca, uma boneca. Todas as suas tentativas frustadas de não ligar, não sentir ciúme, não esperar retorno agora estavam mais presentes em sua face do que nunca. Não, não era por causa dele que estava chorando, aliás, não tem ninguém chorando... Dor. Será que nem a manifestação silenciosa desse segredo ela não se permitia? Quem a poderia ver ali, naquele banheiro com a porta fechada? Não, ele não merece isso que ele fez nela. Mas já fez. O que lhe resta fazer?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Canção de Ninar

Senta, criança, senta
tenho histórias pra contar
sobre terras bem distantes
cavalos que voam,
gente pequenininha
do tamanho de um polegar.

Senta, criança, aquieta-te
tudo na vida há de passar
Vento corre
carregando o tempo
mais rápido do que podes imaginar.

Senta, criança, senta
Pára um pouco pra pensar
Por que temes se Sou contigo?
Descansa
que de ti eu vou cuidar.

Criança senta
criança deita
criança dorme devagar
criança sonha com terras distantes
com flores que dançam e árvores a falar

Seu Pai a leva pra cama
estende a mão pra abençoar
Beija sua testa, sorri
Criança dorme, criança sonha
com castelos brilhantes
e uma viagem lunar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama."

Foi assim. De repente. Num instante todos os pedaços de mim estavam espalhados pelo chão de minha sala. Fiquei ali, parada, vendo pouco a pouco o esvaziar-me de mim mesma. Reflexos. Pedaços de algo que não está mais em mim, mas que ainda sou eu.
Ele? Fechou a porta atrás de si, sem nem olhar pra trás. Menor interesse nesse espetáculo de desconstrução não tinha. Ar sai das entranhas num lufo, carregando tudo para fora. Ponteiro pára: e a sensação de esvair-se.
Riacho nasceu do mais profundo das minhas terras. Vontade de desfazer-me para criar-me de novo, de outra forma, qualquer forma que me fizesse não ligar. É tão difícil o conviver-me. É pior do que ficar frente ao espelho buscando quem é aquela. Talvez só alguém que precisa ir pro deserto.
E a sensação de suspensão causada pela imagem, que toda a vida que se construiu sonhada, implodindo. Malditos camicases!
De nada adianta ficar observando o fogo se espalhar por toda a mata. As cinzas. O escuro. A fumaça. É preciso limpar a área para reflorestar.